Em busca do espiríto genuíno da canção
Outubro 30, 2008
Marcelo Camelo lançou recentemente o disco “Sou” (ou “Nós”, dependendo de como você vê a capa, um poema visual de Rodrigo Linares) e foi sumariamente malhado pelas críticas. Basicamente, só os fãs gostaram, e olhe lá. Foram poucos os jornalistas que olharam o trabalho do hermano sob uma ótica despretensiosa – o que realmente difere o disco de todos os outros trabalhos atuais. A Folha de São Paulo, mas precisamente o jornalista Thiago Ney, massacrou a obra dizendo que é uma das coisas mais chatas que já tinha ouvido, beirando o insuportável. A questão é que Camelo optou pela brejeirice, pela voz sussurrada, pela reflexão mínima daquilo que já foi taxado como o mal do século: a solidão – que como tudo no mundo, acaba sendo uma faca de dois gumes, não é necessariamente uma coisa ruim, negativa. Isso, posto ao lado de toda a produção musical dita moderna hoje, chega a parecer pobre. Não é culpa de Camelo, mas sim dos nossos ouvidos. Ele busca a doçura, a simplicidade, a meditação. No lugar de muita pretensão, o relaxamento natural – o que dá margem, segundo o próprio, à vida, às canções. Isso é, simplemesnte, algo precioso que desacostumamos a ouvir. Não há João Gilberto ou Caymmi em “Sou”, há o espírito esquecido dos anos 50, o mesmo que fez gerar as pérolas da bossa ou as canções sobre o mar. Pra não dizer que Camelo preferiu o analógico, a sonoridade antiga, o espírito se adapta ao rock, como pode se sentir ouvindo “Téo e a Gaivota” e “Mais tarde”, as duas acompanhadas pelo Hurtmold – que é, senão, uma grande banda de rock que leva a sério essa maneira de fazer música –, duas preciosidades, uma progressiva outra lisérgica, respectivamente. Se “Sou” soar velho, pode ser apenas questão de preferência. Se soar chato e ruim, culpe seus ouvidos viciados.
“Lidando com a criminalidade de uma forma cotidiana”
Outubro 2, 2008
No blog Para Inglês Ler, da jornalista Flávia Guerra, tem notícias muito legais sobre o cinema brasileiro visto lá fora. Como o Linha de Passe, último longa do Waltinho com a Daniela Thomas, que está causando burburinho e ganhando mais publicidade que o novo do Guy Ritchie, Rock’n’rolla; notícias do filme do Jean Charles; e também uma discussão em torno da violência brasileira, debatido dentro de um curso de documentário que passou Ônibus 174, documentário de José Padilha, para os alunos.
Não acho que Linha de Passe e Última Parada 174 sejam novos filmes para o filão de “cinema de favela”, mas uma coisa é certa, nunca tivemos tanto contexto para discutir essa visão da violência.
Flávia Guerra conta que no curso foi mostrado um trecho do documentário onde o seqüestrador pede para à refém fingir desespero em frente às câmeras – uma negociação direta, um trato. A professora então pergunta:
“Há algum brasileiro na sala? Se sim, me expliquem: É comum assim no Brasil que a vítima negocie com o seqüestrador, com o ladräo, com o bandido? Vocês, brasileiros, entendem sempre que por trás de um criminoso há sempre uma história de vida que o leva até o ponto em que chega?”
Wall•e
Julho 1, 2008
Saí da sessão de Wall•e na sexta-feira com duas certezas: precisava assistir-lo novamente e, sim, a Pixar conseguiu de novo. Ou melhor, foi além. Wall•e é uma obra-prima. É difícil chegar a essa conclusão, mas de tempos em tempos surgem obras que conseguem esse feito, com frescor e genialidade.
Se as animações, principalmente em 3D, já não estavam com seu foco no público infantil, Wall•e vem consolidar ainda mais essa linguagem um pouco menos acessível, principalmente para quem espera uma história fofa de robôs. Há as partes bonitas, sim (com direito a uma das mais belas do cinema, com Wall•e e Eva nos últimos minutos do filme), mas, além disso, Andrew Stanton se mostrou um gênio. Se Stanton já havia feito de Procurando Nemo minha (ex-)animação favorita, em Wall•e ele decidiu arriscar, fez os primeiros 20 minutos do filme em ritmo de documentário, flagrando o robozinho fazendo seu trabalho na terra (muitas vezes como se houvesse um monitoramento por toda a cidade). Por conta disso, planos e ângulos, dignos de um grande diretor deixam a gente com boca aberta toda hora. De fundo, citações do musical Hello, Dolly! (1969), de Gene Kelly, e Louis Armstrong.
Conhecendo então aos poucos sua rotina e personalidade, Wall•e ganha qualquer platéia quase sem falar (ele apenas repete o nome do robô, por quem se apaixona, Eva), assim como fazia rir e emocionar Buster Keaton e Charles Chaplin. A história que se desenrola numa outra parte do filme é redonda e uma das mais inteligentes que já vi na tela. Não entra em detalhes que só tornariam o filme burocrático. Aquilo é a realidade, acontece daquela maneira e pronto. A mensagem ecológica é repetida sem o público precisar fazer cara feia, soando um tanto fantasiosa, mas muitas vezes verossímil. As questões sobre os limites da comunicação entre os seres humanos, que refletem no declínio da humanidade, são discutidas silenciosamente no filme, somente nos detalhes – e isso já é de tirar o chapéu, o longa não perde o ritmo, nem fica chato. Pelo contrário, só cativa mais e fez com que eu ficasse dias pensando no filme. Isso, vindo de uma animação, só faz crescer ainda mais o sorriso quando eu lembro.
Rosana Hermann escreveu no twitter: “eu tinha raiva. hoje tenho pena de gente que precisa se provar o tempo todo. sabe, tipo ‘eu sei mais’, ‘eu conheço’, ‘eu sou inteligente’”.
Lendo e-mails de alguns conhecidos (e de outros que precisei trabalhar), ainda me irrito um pouco com pessoas que se vangloriam por seus trabalhos. Principalmente quando os resultados são tão simples, nada inovador, aquele mais do mesmo.
Destruindo sua infância
Maio 5, 2008
É um fato que quem nasceu nos anos 80 teve uma infância feliz.
O problema é quando você percebe que nem tudo é desenho matinal, que você precisa trabalhar, ter responsabilidade, fazer correrias. Para completar a destruição desse período de ouro, você fica sabendo que o Bozo se acabou no pó, o Fofão pegou a Mara, a Vovó Mafalda era uma transformista e a Punky Bruster agora é mãe de uma penca de pirralhos. Isso tudo traumatiza, minha gente.
E agora, com 23 anos, isso:
Toda Babada – Director’s cut
Março 7, 2008
Saiu o veredicto do processo contra o depoimento de Nely Passos, exibido no final de um capítulo da Páginas da Vida: A apresentação do depoimento (cerca de 90 minutos) na íntegra em juízo. Para quem não se recorda, Nely contou, assim, para todo o Brasil sua primeira masturbação ao som de Roberto Carlos, “acordando toooooda babada” com o disco girando na vitrola.
A empregada doméstica alega que o depoimento foi totalmente editado, o que causou constrangimento com seus parentes e até sua demissão. Pois é, pra que tanto? Na época eu achei tão inacreditável uma mulher falar desse assunto assim, com tanta sinceridade.
O que rola nesses outros minutos? Será que ela conta toda a preparação? Será que é revelada a música-chave do Robertão? Aposto em Cavalgada.
Rebolando na avenida pra desgraça e glória dessa vida
Junho 12, 2007

Preciso admitir que esse ano vi a Parada Gay de um outro aspecto, tão positivo quanto pintei durante um tempo. Após minha primeira participação em 2005, voltei para casa frustrado. O que vi e senti na verdade era somente uma coisa: toda a comunidade GLBT era o tal do Urubus – comendo o próprio rabo (e isso não era um trocadilho, juro!). Toda aquela luta, que eu enxergava como um esforço para desmistificar o estereótipo de futilidade e promiscuidade era, naquela festa, em vão. Afinal, estando no meio daquele povo, bem ao lado da grande bandeira colorida, a paulista era puro carnaval, onde a pegação rolava solta e algumas pessoas, sem pudor, mostravam as partes íntimas. Nos meus 20 anos, eu esperava, ingenuamente, uma militância séria, alguma coisa semelhante ao que as fotos da parada da Romênia mostrou semanas atrás. Passei o domingo amargando por não ter ido. No final, talvez se houvesse essa militância baseado nas políticas ideológicas e socias, não teríamos todo aquele povo sacudindo a bandeira. E claro, a visibilidade, seja no Guiness ou nos jornais de todo o mundo, não seria a mesma. Um bom exemplo ocorreu um dia antes do evento oficial, com a 5ª Caminhada de Lésbicas, Bissexuais e Simpatizantes que, sem todo o confete, amargou com 200 pessoas, contra 500 de 2006.
Talvez seja esse nosso jeito de protestar, fazendo festa. E essa ótica acabou me fazendo lembrar dos momentos legais que todo meu discurso me fez esquecer até então: famílias inteiras curtindo o domingo de sol, um casal de lésbica com sua filha, as drags engraçadissímas, os trios fazendo todo mundo dançar e a alegria de ver aquele mar de gente, tão diferentes, se estendendo na avenida.
Em tempo
Porém, doeu quando li sobre a morte do francês Grégor Erwan. Há duas semanas no Brasil, Erwan foi ao Ritz, restaurante dos Jardins, logo após a Parada. Ao sair, por volta das 22h30, foi esfaqueado ainda na frente do estabelecimento. Aparentemente, nada foi roubado, simplesmente foi morto. Há conquistas e há realmente os momentos bons, mas ainda assim somos na maioria um povo quadrado, filha da puta e preconceituoso. Coisa que 3,5 milhões de pessoas ainda não conseguem mudar.
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Do que aprendi com os grandes diretores
Junho 11, 2007

Almodóvar baseia seus filmes em suas lembranças, nas histórias que chega a seus ouvidos e nas inspirações que as leituras do dia-a-dia sugerem. Redesenha então a história com suas cores e personagens tão exagerados (e tão reais).
Antonioni pega uma história, um momento, um fragmento e o districha sem piedade. Abre mão de contar história contínua e volta sua lente para analisar determinado fato.
Ambos os diretores são exemplos de criatividade no cinema. Sempre há um frescor, uma novidade, um tesão inédito de assistir seus filmes. Isso, de fato, não é para qualquer um.
Fellini, pra mim, é o exemplo-mor. Poderia aqui abrir o leque de sua filmografia e divagar semióticamente (e emocionalmente) seus filmes. Mas apenas uma obra (-prima, é bom ressaltar) é o bastante pra gente abrir esse blog aqui. 8 ½ não é só um dos melhores filmes do mundo (também é o meu preferido, o que é mais importante), como é o maior defensor do ditado cabeça vazia, oficina do diabo. Sim, e quando o diabo resolve trabalhar é uma maravilha. Fellini entrou em uma crise criativa em seu momento mais star, a pressão por um novo filme era imensa. O que falar em uma nova obra? Fez então da ausência de idéia combustível para sua história. O título? Simples. O filme que quase não saiu do papel (e não saiu mesmo) é o 8 ½ trabalho de Fellini (o ½ é um episódio que completa o longa Boccaccio ‘70, que Fellini dividiu com 2 diretores).
Já eu tenho 22 anos e não tenho nada em minha filmografia. Tenho uma certa necessidade de falar, mas passei bem longe dos blogs nos últimos tempo. Meu primeiro foi na adolescência, em forma de diarinho. O segundo já mesclava divagações pobres com… diarinho. O terceiro tentou se aventurar num estilo de escrita rápida (influência talvez de Rubem Fonseca, Patrícia Melo e João Ubaldo). Tentei até criar um pseudônimo para criar um 4° e falar diretamente sobre.. hã… coisas que geralmente a gente não conta. Esse último não foi pra frente, teve apenas 3 posts que nem cheguei a divulgar.
Não há nada de Almodovar, Antonioni e Fellini em mim. Talvez apenas os hiatos criativos e a prepotência de colocar esse nome no blog.
