Última parada 174

Cena de "Última parada 174"

No blog Para Inglês Ler, da jornalista Flávia Guerra, tem notícias muito legais sobre o cinema brasileiro visto lá fora. Como o Linha de Passe, último longa do Waltinho com a Daniela Thomas, que está causando burburinho e ganhando mais publicidade que o novo do Guy Ritchie, Rock’n’rolla; notícias do filme do Jean Charles; e também uma discussão em torno da violência brasileira, debatido dentro de um curso de documentário que passou Ônibus 174, documentário de José Padilha, para os alunos.

 

Não acho que Linha de Passe e Última Parada 174 sejam novos filmes para o filão de “cinema de favela”, mas uma coisa é certa, nunca tivemos tanto contexto para discutir essa visão da violência.

Flávia Guerra conta que no curso foi mostrado um trecho do documentário onde o seqüestrador pede para à refém fingir desespero em frente às câmeras – uma negociação direta, um trato. A professora então pergunta:

Há algum brasileiro na sala? Se sim, me expliquem: É comum assim no Brasil que a vítima negocie com o seqüestrador, com o ladräo, com o bandido? Vocês, brasileiros, entendem sempre que por trás de um criminoso há sempre uma história de vida que o leva até o ponto em que chega?”

A reposta na sala de aula foi: “Sim, há uma cultura implicíta, e até explícita, que ensina todos brasileiro a lidar com a criminalidade de uma forma cotidiana.”
Talvez isso explique porque não quis esmurrar a criança que tentou me roubar, me furando com um caco de garrafa quebrada.

 

maio 7, 2008

Rosana Hermann escreveu no twitter: “eu tinha raiva. hoje tenho pena de gente que precisa se provar o tempo todo. sabe, tipo ‘eu sei mais’, ‘eu conheço’, ‘eu sou inteligente’”.

 

Lendo e-mails de alguns conhecidos (e de outros que precisei trabalhar), ainda me irrito um pouco com pessoas que se vangloriam por seus trabalhos. Principalmente quando os resultados são tão simples, nada inovador, aquele mais do mesmo.

É um fato que quem nasceu nos anos 80 teve uma infância feliz.

 

O problema é quando você percebe que nem tudo é desenho matinal, que você precisa trabalhar, ter responsabilidade, fazer correrias. Para completar a destruição desse período de ouro, você fica sabendo que o Bozo se acabou no pó, o Fofão pegou a Mara, a Vovó Mafalda era uma transformista e a Punky Bruster agora é mãe de uma penca de pirralhos. Isso tudo traumatiza, minha gente.

 

E agora, com 23 anos, isso:

Preciso admitir que esse ano vi a Parada Gay de um outro aspecto, tão positivo quanto pintei durante um tempo. Após minha primeira participação em 2005, voltei para casa frustrado. O que vi e senti na verdade era somente uma coisa: toda a comunidade GLBT era o tal do Urubus – comendo o próprio rabo (e isso não era um trocadilho, juro!). Toda aquela luta, que eu enxergava como um esforço para desmistificar o estereótipo de futilidade e promiscuidade era, naquela festa, em vão. Afinal, estando no meio daquele povo, bem ao lado da grande bandeira colorida, a paulista era puro carnaval, onde a pegação rolava solta e algumas pessoas, sem pudor, mostravam as partes íntimas. Nos meus 20 anos, eu esperava, ingenuamente, uma militância séria, alguma coisa semelhante ao que as fotos da parada da Romênia mostrou semanas atrás. Passei o domingo amargando por não ter ido. No final, talvez se houvesse essa militância baseado nas políticas ideológicas e socias, não teríamos todo aquele povo sacudindo a bandeira. E claro, a visibilidade, seja no Guiness ou nos jornais de todo o mundo, não seria a mesma. Um bom exemplo ocorreu um dia antes do evento oficial, com a 5ª Caminhada de Lésbicas, Bissexuais e Simpatizantes que, sem todo o confete, amargou com 200 pessoas, contra 500 de 2006.

Talvez seja esse nosso jeito de protestar, fazendo festa. E essa ótica acabou me fazendo lembrar dos momentos legais que todo meu discurso me fez esquecer até então: famílias inteiras curtindo o domingo de sol, um casal de lésbica com sua filha, as drags engraçadissímas, os trios fazendo todo mundo dançar e a alegria de ver aquele mar de gente, tão diferentes, se estendendo na avenida.

 Em tempo
Porém, doeu quando li sobre a morte do francês Grégor Erwan. Há duas semanas no Brasil, Erwan foi ao Ritz, restaurante dos Jardins, logo após a Parada. Ao sair, por volta das 22h30, foi esfaqueado ainda na frente do estabelecimento. Aparentemente, nada foi roubado, simplesmente foi morto. Há conquistas e há realmente os momentos bons, mas ainda assim somos na maioria um povo quadrado, filha da puta e preconceituoso. Coisa que 3,5 milhões de pessoas ainda não conseguem mudar.

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