“Lidando com a criminalidade de uma forma cotidiana”
Outubro 2, 2008
No blog Para Inglês Ler, da jornalista Flávia Guerra, tem notícias muito legais sobre o cinema brasileiro visto lá fora. Como o Linha de Passe, último longa do Waltinho com a Daniela Thomas, que está causando burburinho e ganhando mais publicidade que o novo do Guy Ritchie, Rock’n’rolla; notícias do filme do Jean Charles; e também uma discussão em torno da violência brasileira, debatido dentro de um curso de documentário que passou Ônibus 174, documentário de José Padilha, para os alunos.
Não acho que Linha de Passe e Última Parada 174 sejam novos filmes para o filão de “cinema de favela”, mas uma coisa é certa, nunca tivemos tanto contexto para discutir essa visão da violência.
Flávia Guerra conta que no curso foi mostrado um trecho do documentário onde o seqüestrador pede para à refém fingir desespero em frente às câmeras – uma negociação direta, um trato. A professora então pergunta:
“Há algum brasileiro na sala? Se sim, me expliquem: É comum assim no Brasil que a vítima negocie com o seqüestrador, com o ladräo, com o bandido? Vocês, brasileiros, entendem sempre que por trás de um criminoso há sempre uma história de vida que o leva até o ponto em que chega?”
Wall•e
Julho 1, 2008
Saí da sessão de Wall•e na sexta-feira com duas certezas: precisava assistir-lo novamente e, sim, a Pixar conseguiu de novo. Ou melhor, foi além. Wall•e é uma obra-prima. É difícil chegar a essa conclusão, mas de tempos em tempos surgem obras que conseguem esse feito, com frescor e genialidade.
Se as animações, principalmente em 3D, já não estavam com seu foco no público infantil, Wall•e vem consolidar ainda mais essa linguagem um pouco menos acessível, principalmente para quem espera uma história fofa de robôs. Há as partes bonitas, sim (com direito a uma das mais belas do cinema, com Wall•e e Eva nos últimos minutos do filme), mas, além disso, Andrew Stanton se mostrou um gênio. Se Stanton já havia feito de Procurando Nemo minha (ex-)animação favorita, em Wall•e ele decidiu arriscar, fez os primeiros 20 minutos do filme em ritmo de documentário, flagrando o robozinho fazendo seu trabalho na terra (muitas vezes como se houvesse um monitoramento por toda a cidade). Por conta disso, planos e ângulos, dignos de um grande diretor deixam a gente com boca aberta toda hora. De fundo, citações do musical Hello, Dolly! (1969), de Gene Kelly, e Louis Armstrong.
Conhecendo então aos poucos sua rotina e personalidade, Wall•e ganha qualquer platéia quase sem falar (ele apenas repete o nome do robô, por quem se apaixona, Eva), assim como fazia rir e emocionar Buster Keaton e Charles Chaplin. A história que se desenrola numa outra parte do filme é redonda e uma das mais inteligentes que já vi na tela. Não entra em detalhes que só tornariam o filme burocrático. Aquilo é a realidade, acontece daquela maneira e pronto. A mensagem ecológica é repetida sem o público precisar fazer cara feia, soando um tanto fantasiosa, mas muitas vezes verossímil. As questões sobre os limites da comunicação entre os seres humanos, que refletem no declínio da humanidade, são discutidas silenciosamente no filme, somente nos detalhes – e isso já é de tirar o chapéu, o longa não perde o ritmo, nem fica chato. Pelo contrário, só cativa mais e fez com que eu ficasse dias pensando no filme. Isso, vindo de uma animação, só faz crescer ainda mais o sorriso quando eu lembro.
Do que aprendi com os grandes diretores
Junho 11, 2007

Almodóvar baseia seus filmes em suas lembranças, nas histórias que chega a seus ouvidos e nas inspirações que as leituras do dia-a-dia sugerem. Redesenha então a história com suas cores e personagens tão exagerados (e tão reais).
Antonioni pega uma história, um momento, um fragmento e o districha sem piedade. Abre mão de contar história contínua e volta sua lente para analisar determinado fato.
Ambos os diretores são exemplos de criatividade no cinema. Sempre há um frescor, uma novidade, um tesão inédito de assistir seus filmes. Isso, de fato, não é para qualquer um.
Fellini, pra mim, é o exemplo-mor. Poderia aqui abrir o leque de sua filmografia e divagar semióticamente (e emocionalmente) seus filmes. Mas apenas uma obra (-prima, é bom ressaltar) é o bastante pra gente abrir esse blog aqui. 8 ½ não é só um dos melhores filmes do mundo (também é o meu preferido, o que é mais importante), como é o maior defensor do ditado cabeça vazia, oficina do diabo. Sim, e quando o diabo resolve trabalhar é uma maravilha. Fellini entrou em uma crise criativa em seu momento mais star, a pressão por um novo filme era imensa. O que falar em uma nova obra? Fez então da ausência de idéia combustível para sua história. O título? Simples. O filme que quase não saiu do papel (e não saiu mesmo) é o 8 ½ trabalho de Fellini (o ½ é um episódio que completa o longa Boccaccio ‘70, que Fellini dividiu com 2 diretores).
Já eu tenho 22 anos e não tenho nada em minha filmografia. Tenho uma certa necessidade de falar, mas passei bem longe dos blogs nos últimos tempo. Meu primeiro foi na adolescência, em forma de diarinho. O segundo já mesclava divagações pobres com… diarinho. O terceiro tentou se aventurar num estilo de escrita rápida (influência talvez de Rubem Fonseca, Patrícia Melo e João Ubaldo). Tentei até criar um pseudônimo para criar um 4° e falar diretamente sobre.. hã… coisas que geralmente a gente não conta. Esse último não foi pra frente, teve apenas 3 posts que nem cheguei a divulgar.
Não há nada de Almodovar, Antonioni e Fellini em mim. Talvez apenas os hiatos criativos e a prepotência de colocar esse nome no blog.
