Marcelo Camelo lançou recentemente o disco “Sou” (ou “Nós”, dependendo de como você vê a capa, um poema visual de Rodrigo Linares) e foi sumariamente malhado pelas críticas. Basicamente, só os fãs gostaram, e olhe lá. Foram poucos os jornalistas que olharam o trabalho do hermano sob uma ótica despretensiosa – o que realmente difere o disco de todos os outros trabalhos atuais. A Folha de São Paulo, mas precisamente o jornalista Thiago Ney, massacrou a obra dizendo que é uma das coisas mais chatas que já tinha ouvido, beirando o insuportável. A questão é que Camelo optou pela brejeirice, pela voz sussurrada, pela reflexão mínima daquilo que já foi taxado como o mal do século: a solidão – que como tudo no mundo, acaba sendo uma faca de dois gumes, não é necessariamente uma coisa ruim, negativa. Isso, posto ao lado de toda a produção musical dita moderna hoje, chega a parecer pobre. Não é culpa de Camelo, mas sim dos nossos ouvidos. Ele busca a doçura, a simplicidade, a meditação. No lugar de muita pretensão, o relaxamento natural – o que dá margem, segundo o próprio, à vida, às canções. Isso é, simplemesnte, algo precioso que desacostumamos a ouvir. Não há João Gilberto ou Caymmi em “Sou”, há o espírito esquecido dos anos 50, o mesmo que fez gerar as pérolas da bossa ou as canções sobre o mar. Pra não dizer que Camelo preferiu o analógico, a sonoridade antiga, o espírito se adapta ao rock, como pode se sentir ouvindo “Téo e a Gaivota” e “Mais tarde”, as duas acompanhadas pelo Hurtmold – que é, senão, uma grande banda de rock que leva a sério essa maneira de fazer música –, duas preciosidades, uma progressiva outra lisérgica, respectivamente. Se “Sou” soar velho, pode ser apenas questão de preferência. Se soar chato e ruim, culpe seus ouvidos viciados.